Decidi trazer para esse espaço algumas dúvidas comuns de pacientes, para esclarecê-las, responder a outras que possam aparecer e discutir assuntos cotidianos e atuais sobre saúde e doenças cardiovasculares. Espero contribuir com todos e ajudar àqueles que ainda não conseguiram estar seguros quanto às suas doenças ou tratamento.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

QUANTO PESO EU TENHO QUE PERDER?



Sempre que um paciente chega em meu consultório com algum problema cardiovascular, para fazer uma avaliação pré-operatória ou até mesmo para uma avaliação de rotina, me escuta explicar sobre os malefícios de nosso atual estilo de vida (sedentarismo, sobrepeso, estresse, depressão...). Entretanto, uma pergunta é frequente entre os que apresentam sobrepeso e obesidade: qual a necessidade real de perda de peso para controle clínico ou redução dos riscos de complicações?
Sabe-se que em pacientes obesos ocorre uma considerável redução dos níveis de pressão arterial a cada 5% de redução do peso corporal (exemplo: paciente com pressão alta e peso de 130Kg, poderia reduzi-la parcialmente se atingisse o peso de 123Kg ou menos). Em recente estudo, apresentado no XXI Congresso Mundial da Federação Internacional de Cirugia da Obesidade e Transtornos Metabólicos, os pesquisadores afirmaram que os riscos cardiovasculares diminuem com 15% de redução no peso. Se pensarmos em controle da asma, por exemplo, é necessário muito menos. Entretanto, para percebermos uma real melhora na qualidade de vida o valor precisa ser de aproximadamente 20% de redução do peso corporal. Outro dado interessante, e que motiva essas mudanças, é que a perda de peso nesses pacientes leva a um melhor controle de muitas patologias (tabela).
Os indivíduos que ganham uma quantidade acentuada de peso durante a idade adulta e passam para outra categoria de IMC (saem de sobrepeso e se tornam obesos, por exemplo) têm um risco aumentado de desenvolver os tipos de câncer relacionados à obesidade, nos homens, esse risco pode aumentar em até 50%. Entre as mulheres, um aumento do IMC do peso normal para a obesidade durante a idade adulta foi associado a um risco aumentado em 17% para tumores malignos relacionados à obesidade.
E em quanto tempo devemos chegar a essas metas? É mais importante que a perda de peso se dê de maneira controlada e constante do que rapidamente. Um paciente que reduza o seu IMC (índice de massa corporal) de 50 para 35 é mais saudável do que um paciente com IMC 35 que nunca tenha perdido peso. O processo de reduzir o peso corporal deixa o paciente em um estado de saúde melhor do que aquele que o IMC real sugere.
O mesmo grau de dedicação deve ser mantido após atingirmos as metas. Em outro estudo, publicado na revista médica Obesity, os médicos identificaram que para cada quilo de peso que perderam, os pacientes em um novo estudo consumiram 100 calorias extras por dia – mais de três vezes do que precisariam para manter o peso baixo. Esse aumento de ingesta pode explicar por que a manutenção de longo prazo do peso corporal reduzido é tão difícil. Portanto, devemos ter em mente a meta para o nosso peso e que a perda deve ser constante, mesmo que lenta e gradual, pois ao atingirmos o peso ideal será mais fácil mantê-lo.

CONDIÇÃO CLÍNICA / LABORATORIAL
% total de perda de peso corporal necessária
Controle da síndrome metabólica
13,00%
Redução dos níveis de triglicerídeos
7,00%
Aumento do HDL (colesterol bom)
11,00%
Controle da Glicose
11,00%
Controle da Pressão Arterial
20,00%
Fonte: Dr. Carel le Roux / Apresentação IFSO 2016





segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

AS DOENÇAS E A FÉ

A relação entre a espiritualidade e o adoecer é conhecida há algum tempo, assim como a melhora de alguns pacientes em decorrência da fé. Motivados por esses relatos, pesquisadores iniciaram estudos científicos e comprovaram que existe uma relação entre religiosidade/espiritualidade e as doenças cardiovasculares, a depressão, a imunidade, os níveis da pressão sanguínea e complicações pós-operatórias de cirurgias cardíacas.
A espiritualidade pode ser definida como uma busca que o ser humano tem para entender o significado da vida e uma conexão com algo superior, “uma busca pessoal para entender questões finais sobre a vida, seu sentido (...) que, pode ou não, levar ao desenvolvimento de práticas religiosas (...)”*. A espiritualidade não significa religiosidade. Essa última significa uma conceituação de como buscar essas respostas. Cada religião como uma forma diferente de cultuar suas crenças e com regras a serem seguidas. Uma sistematização da espiritualidade.


Estudos em hipertensão arterial demonstraram que os pacientes que participavam de algum culto religioso (independente de qual) tinham níveis de pressão arterial mais bem controlados. Do mesmo jeito, idosos que rezavam ou liam literatura religiosa apresentavam 40% menos chances de apresentarem hipertensão.
Pesquisas clínicas que relacionaram a espiritualidade e a redução da mortalidade acharam resultados variáveis. Contudo, em seis estudos realizados até 2003 observou-se uma redução média de risco de até 25% da mortalidade em pacientes que aderem a práticas religiosas, independente de outras condições. Nesses estudos foi encontrado resultado benéfico dessas práticas em pacientes com depressão. Maiores níveis de espiritualidade se correlacionam com maior satisfação de vida e felicidade e menores taxas de depressão.
O impacto positivo da espiritualidade/religiosidade na saúde de pessoas estudadas vem demonstrando seu possível papel como fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças (na população sadia) e eventual redução da gravidade dessas doenças e até de morte entre esses pacientes.
*Rev Bras Clin Med. 2010;8(2):154-8