Decidi trazer para esse espaço algumas dúvidas comuns de pacientes, para esclarecê-las, responder a outras que possam aparecer e discutir assuntos cotidianos e atuais sobre saúde e doenças cardiovasculares. Espero contribuir com todos e ajudar àqueles que ainda não conseguiram estar seguros quanto às suas doenças ou tratamento.

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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

AS DOENÇAS E A FÉ

A relação entre a espiritualidade e o adoecer é conhecida há algum tempo, assim como a melhora de alguns pacientes em decorrência da fé. Motivados por esses relatos, pesquisadores iniciaram estudos científicos e comprovaram que existe uma relação entre religiosidade/espiritualidade e as doenças cardiovasculares, a depressão, a imunidade, os níveis da pressão sanguínea e complicações pós-operatórias de cirurgias cardíacas.
A espiritualidade pode ser definida como uma busca que o ser humano tem para entender o significado da vida e uma conexão com algo superior, “uma busca pessoal para entender questões finais sobre a vida, seu sentido (...) que, pode ou não, levar ao desenvolvimento de práticas religiosas (...)”*. A espiritualidade não significa religiosidade. Essa última significa uma conceituação de como buscar essas respostas. Cada religião como uma forma diferente de cultuar suas crenças e com regras a serem seguidas. Uma sistematização da espiritualidade.


Estudos em hipertensão arterial demonstraram que os pacientes que participavam de algum culto religioso (independente de qual) tinham níveis de pressão arterial mais bem controlados. Do mesmo jeito, idosos que rezavam ou liam literatura religiosa apresentavam 40% menos chances de apresentarem hipertensão.
Pesquisas clínicas que relacionaram a espiritualidade e a redução da mortalidade acharam resultados variáveis. Contudo, em seis estudos realizados até 2003 observou-se uma redução média de risco de até 25% da mortalidade em pacientes que aderem a práticas religiosas, independente de outras condições. Nesses estudos foi encontrado resultado benéfico dessas práticas em pacientes com depressão. Maiores níveis de espiritualidade se correlacionam com maior satisfação de vida e felicidade e menores taxas de depressão.
O impacto positivo da espiritualidade/religiosidade na saúde de pessoas estudadas vem demonstrando seu possível papel como fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças (na população sadia) e eventual redução da gravidade dessas doenças e até de morte entre esses pacientes.
*Rev Bras Clin Med. 2010;8(2):154-8


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O ÁLCOOL FAZ BEM PARA O CORAÇÃO?

O abuso crônico da ingestão de bebidas alcoólicas pode trazer inúmeros problemas à saúde, além dos possíveis encargos sociais e familiares que já conhecemos. Entretanto, a maioria dos pacientes acredita que bebem “moderadamente” e que, portanto, estão livres desses efeitos. O que poucos sabem é que o recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é que o consumo diário não ultrapasse 30g de álcool. Nas mulheres, idosos, indivíduos com esteatose hepática (gordura no fígado), hipertensão arterial ou diabetes esse limite pode cair pela metade. Em indivíduos adultos e saudáveis o consumo de álcool até essa quantidade (tabela 1), pode ser benéfico, com redução das chances de infarto, redução da chance de trombose (“coágulos nos vasos sanguíneos”), controle da pressão sanguínea e do estresse. O vinho, em particular, ainda oferece a ação de substâncias (flavonóides) que melhoram o perfil do colesterol (presentes também no suco de uva). Entretanto, o consumo além desses limites pode causar grandes malefícios ao corpo humano, em especial a saúde do coração.
 A ingestão crônica de quantidade de álcool superior à recomendada para idade, sexo e condição clínica pode causar insuficiência cardíaca (“coração fraco”). Isto ocorre por fibrose intersticial do músculo cardíaco (morte das células do coração com reposição por tecido de cicatrização – que não contrai) e dilatação do coração, entre outras alterações. Frequentemente encontradas nos grandes consumidores de bebidas alcoólicas, mesmo na ausência de sinais ou sintomas. Cerca de metade dos alcoólatras crônicos assintomáticos apresentam alterações ao exame de ecocardiograma, e pelo menos 30% desses apresentam evidências disfunção sistólica do coração (perda da força do coração). Se mantiverem esse padrão de consumo, esses pacientes costumam desenvolver os sinais e sintomas de insuficiência cardíaca congestiva. Contudo, os indivíduos que consomem álcool de forma controlada e permitida apresentam uma incidência de problemas cardíacos mais baixa do que os abstêmios. 
O álcool também pode ajudar a desenvolver ou a exacerbar a hipertensão arterial. Indivíduos que consomem mais de duas doses por dia tem uma chance 2 vezes maior de apresentar hipertensão, sendo que a gravidade do aumento da pressão arterial aumenta com o nível de abuso (dose dependente).
O consumo maciço de bebidas alcoólicas, também está associado ao aumento de doença arterial coronariana – DAC (entupimento das artérias do coração). Em contrapartida, a ingestão leve a moderada de álcool (2 a 7 doses por semana) reduz o risco de doenças cardíacas e morte, especificamente por infarto.
Nota-se assim que o consumo leve de álcool, dentro dos padrões de recomendação e sem o abuso social, pode trazer benefícios (que também são encontrados de outras maneiras, não sendo obrigatória sua utilização para uma boa saúde). Entretanto, é importante ressaltar os malefícios que o consumo moderado a grave pode causar. Pacientes cardíacos, pacientes obesos ou com sobrepeso (que estejam tentando emagrecer), idosos, mulheres com problemas de saúde e naqueles em que já existam doenças relacionadas ao álcool, o melhor seria não consumi-lo, ou fazê-lo estritamente nas doses permitidas. Converse sempre com um médico para definir o nível e padrão aceitável para sua condição de saúde.

Quantidade aproximada de álcool por dose de bebida (Fonte: NIAAA)

1 lata de cerveja
15g
1 tulipa de chope
12g
1 taça pequena de vinho (150mL)
15g
1 dose pequena de destilado (30mL)
15g


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

MINHA FAMÍLIA TEM DOENÇA DO CORAÇÃO, E EU?

É sabido, desde o início do século passado, que há uma “herança familiar” no surgimento da doença arterial coronariana – DAC (“placa de gordura nas artérias do coração”), que nos dias atuais é a principal causa de morte no mundo. Desde 2007, com estudos genéticos, foi possível identificar mais de 50 genes que podem contribuir para o surgimento dessa doença (que são transmitidos em nosso DNA). Tal qual descrito acima, é de conhecimento de todos que as pessoas que aderem a um estilo de vida saudável reduzem as suas chances de eventos cardiovasculares (“infarto”). Esse estilo de vida saudável, sem fumar, evitando a obesidade, com atividade física regular, um padrão de dieta saudável, controle do estresse é a atual estratégia para melhorar a saúde cardiovascular na população em geral.
Em estudo recente*, apresentado no último congresso médico da Associação Americana de Cardiologia (AHA), pesquisadores determinaram o impacto que uma vida saudável teria sobre o desenvolvimento da doença arterial coronariana – DAC (“placa de gordura nas artérias do coração”) entre pacientes com um elevado risco genético.
Neste estudo, pacientes com risco genético elevado apresentaram um risco aumentado de eventos coronários (“infarto”). No entanto, a adesão a um estilo de vida saudável foi associado a um risco significativamente menor de eventos. Os resultados desta análise apoiaram três conclusões dignas de nota:
·       Fatores genéticos realmente contribuem para aumentar as chances da doença arterial coronariana.
·       Os resultados fornecem evidências de que fatores de estilo de vida podem poderosamente modificar o risco de desenvolver a doença arterial coronariana .
·       Um estilo de vida saudável foi associado à redução do risco de doença, independentemente se os pacientes tinham uma história familiar muito forte para DAC ou nenhuma história. E, portanto, uma modificação intensiva de estilo de vida deve ser recomendada para todos, especialmente para aqueles com alto risco genético.
Em conclusão, levando em conta os conhecimentos prévios, corroborados a partir dos resultados desse estudo (que avaliou mais de 55 mil participantes), descobrimos que a adesão a um estilo de vida saudável está associada com um risco substancialmente reduzido de doença arterial coronariana, mesmo naqueles indivíduos com grande história dessa doença na família.


*November 13, 2016, at NEJM.org

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Estou com a Vitamina D baixa, isso pode afetar meu coração?

Há alguns dias recebi, em meu consultório, quatro pacientes que vinham para uma consulta de retorno e traziam os resultados de exames de sangue. Eles haviam se deparado com níveis baixos de vitamina D no sangue. Todos tinham as mesmas dúvidas e as trouxe para cá e juntamente com as respostas que dei a eles.
Estou com a Vitamina D baixa, isso pode afetar meu coração?
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte nos dias atuais. Recentemente a deficiência de vitamina D tem sido identificada como um fator de risco para muitas doenças, como câncer e doença cardiovascular. A deficiência de vitamina D já é considerada como um fator de risco para desenvolver infarto do miocárdio (“ataque cardíaco”), insuficiência cardíaca (“coração fraco”), acidente vascular encefálico – AVE (“derrame”), hipertensão arterial sistêmica (“pressão alta”) e diabetes.

O que é a vitamina D?
Vitamina D atua como um hormônio, regulando mais de 200 genes e reações por todo o corpo, como por exemplo:
·         Impede a multiplicação de células anormais nas mamas e no intestino
·         Ajuda a regular a pressão sanguínea agindo no rim
·         Ajuda a regular os níveis de açúcar agindo na secreção de insulina
O que causa a deficiência de vitamina D?
Nosso corpo produz vitamina D, particularmente quando pegamos sol. Entretanto, como nos dias de hoje, as pessoas estão cada vez menos envolvidas em atividades ao ar livre e utilizando filtro solar (o que é necessário e importante para prevenir câncer de pele), há um número crescente de pacientes com deficiência de vitamina D. Há ainda outras condições que podem contribuir para reduzir os níveis de vitamina D como a obesidade e a dieta inadequada.
Temos que ter em mente que os males que enfrentaremos em um futuro próximo estão diretamente ligados às escolhas erradas que estamos tomando hoje em nossas vidas. Portanto, temos que mudar radicalmente os nossos hábitos (aqueles que ainda não o fizeram). Fazer atividades físicas ao sol (mesmo que usando filtro solar nos horários e da maneira como é recomendado), ajustar nossas dietas, vencer o sobrepeso e a obesidade. Além disso, ir a consultas médicas regulares. Seu médico, quando necessário, vai solicitar esses exames e suplementar a vitamina D, se for indicado.