Decidi trazer para esse espaço algumas dúvidas comuns de pacientes, para esclarecê-las, responder a outras que possam aparecer e discutir assuntos cotidianos e atuais sobre saúde e doenças cardiovasculares. Espero contribuir com todos e ajudar àqueles que ainda não conseguiram estar seguros quanto às suas doenças ou tratamento.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

O ÁLCOOL FAZ BEM PARA O CORAÇÃO?

O abuso crônico da ingestão de bebidas alcoólicas pode trazer inúmeros problemas à saúde, além dos possíveis encargos sociais e familiares que já conhecemos. Entretanto, a maioria dos pacientes acredita que bebem “moderadamente” e que, portanto, estão livres desses efeitos. O que poucos sabem é que o recomendado pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é que o consumo diário não ultrapasse 30g de álcool. Nas mulheres, idosos, indivíduos com esteatose hepática (gordura no fígado), hipertensão arterial ou diabetes esse limite pode cair pela metade. Em indivíduos adultos e saudáveis o consumo de álcool até essa quantidade (tabela 1), pode ser benéfico, com redução das chances de infarto, redução da chance de trombose (“coágulos nos vasos sanguíneos”), controle da pressão sanguínea e do estresse. O vinho, em particular, ainda oferece a ação de substâncias (flavonóides) que melhoram o perfil do colesterol (presentes também no suco de uva). Entretanto, o consumo além desses limites pode causar grandes malefícios ao corpo humano, em especial a saúde do coração.
 A ingestão crônica de quantidade de álcool superior à recomendada para idade, sexo e condição clínica pode causar insuficiência cardíaca (“coração fraco”). Isto ocorre por fibrose intersticial do músculo cardíaco (morte das células do coração com reposição por tecido de cicatrização – que não contrai) e dilatação do coração, entre outras alterações. Frequentemente encontradas nos grandes consumidores de bebidas alcoólicas, mesmo na ausência de sinais ou sintomas. Cerca de metade dos alcoólatras crônicos assintomáticos apresentam alterações ao exame de ecocardiograma, e pelo menos 30% desses apresentam evidências disfunção sistólica do coração (perda da força do coração). Se mantiverem esse padrão de consumo, esses pacientes costumam desenvolver os sinais e sintomas de insuficiência cardíaca congestiva. Contudo, os indivíduos que consomem álcool de forma controlada e permitida apresentam uma incidência de problemas cardíacos mais baixa do que os abstêmios. 
O álcool também pode ajudar a desenvolver ou a exacerbar a hipertensão arterial. Indivíduos que consomem mais de duas doses por dia tem uma chance 2 vezes maior de apresentar hipertensão, sendo que a gravidade do aumento da pressão arterial aumenta com o nível de abuso (dose dependente).
O consumo maciço de bebidas alcoólicas, também está associado ao aumento de doença arterial coronariana – DAC (entupimento das artérias do coração). Em contrapartida, a ingestão leve a moderada de álcool (2 a 7 doses por semana) reduz o risco de doenças cardíacas e morte, especificamente por infarto.
Nota-se assim que o consumo leve de álcool, dentro dos padrões de recomendação e sem o abuso social, pode trazer benefícios (que também são encontrados de outras maneiras, não sendo obrigatória sua utilização para uma boa saúde). Entretanto, é importante ressaltar os malefícios que o consumo moderado a grave pode causar. Pacientes cardíacos, pacientes obesos ou com sobrepeso (que estejam tentando emagrecer), idosos, mulheres com problemas de saúde e naqueles em que já existam doenças relacionadas ao álcool, o melhor seria não consumi-lo, ou fazê-lo estritamente nas doses permitidas. Converse sempre com um médico para definir o nível e padrão aceitável para sua condição de saúde.

Quantidade aproximada de álcool por dose de bebida (Fonte: NIAAA)

1 lata de cerveja
15g
1 tulipa de chope
12g
1 taça pequena de vinho (150mL)
15g
1 dose pequena de destilado (30mL)
15g


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